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Responsabilidade Emocional nos Tempos Atuais

Atualizado: 6 de set. de 2023


Imagem: A Rosa Meditativa - Salvador Dalí (1958)


Hoje em dia fala-se muito naquilo que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (2001) chama de modernidade líquida, um termo para referir o momento histórico em que vivemos, baseado na fragilidade, maleabilidade e fluidez das relações sociais, económicas e de produção. O termo é um contraponto ao que seria a modernidade sólida, que designa a realidade de outros tempos em que havia uma maior rigidez nos papéis a se cumprir e um maior peso das tradições. Embora a modernidade sólida tivesse muitas limitações, havia uma maior confiança na continuidade das relações humanas. Nunca antes vivemos com tanta disponibilidade e inclusive excesso de informação, para além de uma vasta gama de possibilidades de entretenimento e de estilos de vida, assim como uma maior facilidade em aceder a bens de consumo. Porém, todos estes acabam por ser facilmente descartados em um dinamismo em que se deseja prazer instantâneo e novidade constante, sendo muito difícil para muitos jovens escolherem aquilo que desejam ser e ao que queiram dedicar-se, afinal, toda escolha implica em uma renúncia e não se pode viver e ter de tudo ao mesmo tempo. As crises existenciais são cada vez mais comuns.


A dinâmica da fluidez, relativa ao nosso momento histórico também acaba por se refletir nas relações, especialmente sexuais e românticas, onde muito facilmente se troca de parceiros e vê-se uma maior dificuldade nas pessoas para com o comprometimento com o outro. Para tal, o sociólogo Bauman (2004) cunhou o conceito de amor líquido. É muito fácil de se conhecer e estar com pessoas, independentemente da quantidade, no entanto, ter e manter um relacionamento duradouro tornou-se cada vez mais difícil. O que se ganha em quantidade, perde-se em qualidade. Para ilustrar este fenómeno, pensemos nas redes sociais. Quantos dos seus amigos no Facebook ou Instagram são realmente seus amigos? Daquilo que você revela e que as pessoas revelam nas redes sociais, o que não é superficial? O que realmente tem conteúdo substancial e não apenas se mostra como esteticamente apelativo? Darei mais um exemplo, a famosa rede social do Tinder: basta passar uma pessoa para o lado para ver potenciais parceiros e apostar na possibilidade de obter um "match", assim como se pode falar com várias pessoas ao mesmo tempo e inclusive, caso algo o incomodar ou se já não estiver interessado, pode simplesmente parar de responder e dar "ghost" na pessoa. Tudo é muito fácil e imediato, mas é essencial parar e refletir. Infelizmente, tais dinâmicas acabam por favorecer comportamentos que refletem aquilo que seria a falta de responsabilidade emocional com o outro. Mas o que seria isso de responsabilidade emocional? É lembrar e agir considerando a outra pessoa enquanto um ser integral, com as suas crenças e sentimentos, tendo consciência dos seus atos e evitando provocar sofrimentos emocionais desnecessários; é, reconhecendo a sua responsabilidade para com aquilo que se dedica, comunicar de maneira assertiva as suas intenções e expectativas ao relacionar-se com qualquer pessoa.


Diante do conceito de modernidade líquida e amores líquidos aqui exposta, a responsabilidade emocional passa pelo retomar de uma visão mais humanista (no termo filosófico existencialista) e impedir que uma lógica de mercado, que avalia as pessoas talvez como produtos mais ou menos apelativos, impere. É muito importante trabalhar não somente a própria responsabilidade emocional, mas também saber identificar a falta desta no comportamento de outras pessoas, podendo, diante destes acontecimentos, conseguir ser assertivo e se reafirmar nas suas necessidades. Vou dar alguns exemplos:

Imagine que você conheceu uma pessoa com quem está saindo e que está tudo fluindo bem, e então chega um momento em que você sente que está realmente começando a gostar da pessoa. Até agora, tudo indicou que essa pessoa também estava dedicada e afim de construir algo com você, mas, um dia, quando você expressa os seus sentimentos de uma forma mais direta, essa pessoa lhe diz que não sente o mesmo, que apenas queria algo informal, como uma amizade colorida ou algo do género. Neste caso, a pessoa agiu de uma forma inconsistente e ela deveria ter deixado claras as suas intenções antes de cultivar o envolvimento no outro, é aquilo que na linguagem comum se traduz por "brincou com os meus sentimentos". No entanto, teria sido mais sábio você mesmo ter perguntado para a pessoa em que fase de vida ela estava e o que ela queria de relações, afinal, a comunicação é essencial em todas as relações e auxilia com que se evite a criar expectativas irrealistas. Ninguém precisa adivinhar o que se passa no seu mundo interno, assim como você não precisa andar a especular sobre as motivações e intenções da outra pessoa. Vou dar outro exemplo:

Imagine que você está em uma relação amorosa há anos e um dia, a pessoa te chama para jantar e diz que já não sente a mesma coisa, mas no próprio dia, ela foi muito carinhosa e deu a entender que estava tudo ótimo e pleno.

Outro exemplo: você começou uma relação com alguém a quem você deixou as suas expectativas e valores claros, assim como a outra pessoa, mas quando a relação começa a crescer, a pessoa com quem está começa a esperar coisas de você as quais você nunca se mostrou disponível e que ainda são incompatíveis com a sua personalidade e valores.


Imagina que você conhece alguém na noite e pareceu ótimo, tendo ocorrido conversas muito profundas e ricas e em que você sentiu uma excelente conexão, algo que inclusive a outra pessoa também comunicou. Depois vocês combinaram de sair e se conhecerem melhor, mas no dia seguinte, quando você manda uma mensagem, a pessoa nem responde e faz aquilo que se chama de "ghost".


É normal que uma pessoa esteja em crise ou não saiba muito bem o que queira, no entanto, ao envolver outras pessoas ela tem de ter o compromisso ético, moral, a responsabilidade de deixar isso claro ao outro. Muitas pessoas acabam sendo incoerentes e em boa parte das vezes apenas reproduzem padrões de comportamento que acabaram adotando em resposta às vivências traumáticas e conflitos pessoais não elaborados. O autoconhecimento aqui é essencial. Apenas no que se refere ao "ghosting", por exemplo, uma pessoa pode o praticar por diversas razões:

Por ter dificuldade em gerir situações conflituosas, especialmente quando está confusa e logo evita a situação ao invés de posicionar-se clara e assertivamente;

Por que pode acreditar que "desaparecer" é melhor do que dizer algo que pode magoar outra pessoa, algo que racionalmente não faz o menor sentido, pois deixar a outra pessoa pensando em razões por ter sido "deixada" é bem pior do que simplesmente comunicar algo como "gostei de te conhecer, mas estou em uma fase mais focada em mim mesmo e não consigo me dedicar" ou " acabei de sair de um relacionamento", ou dizer aquilo que lhe fizer mais sentido. Ninguém tem o dever de ter de explicar-se ao outro quando não existe uma relação, mas ao menos tem de ter a responsabilidade em ser coerente devido às emoções e expectativas que pode ter suscitado no outro.


Outra razão para o "ghost" e comportamentos incongruentes, pode ser porque uma pessoa pode se sentir invadida e pressionada com a necessidade do comprometimento com outra pessoa e, neste caso, a pessoa devia deixar claro que não consegue ter um compromisso e caberia a ela tentar resolver as suas questões pessoais referentes ao evitamento.


Podem ser dadas ainda outras razões, por exemplo, que uma pessoa possa não querer lidar com os próprios sentimentos e talvez com a vulnerabilidade que sentiu diante da outra pessoa e logo fecha-se para continuar na sua redoma de autoproteção, ou ainda, porque sabota boas oportunidades de relação no sentido de que, por traumas, duvida de quando algo é muito bom e logo afasta-se.

Há inúmeras diferentes e possíveis motivações por detrás dos comportamentos e é essencial trabalhar o nosso autoconhecimento, podendo, diante de padrões disfuncionais pessoais, procurar evoluir e nos aprimoramos. Que sejamos responsáveis e claros naquilo que sentimentos, desejamos e esperamos!


Referências:


Bauman, Zygmunt (2001). Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Editora Zahar.

Bauman, Z. (2004). Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Editora Schwarcz-Companhia das Letras.


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