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Emoções na Parentalidade: O tornar-se pai e/ou mãe

Atualizado: 6 de set. de 2023


Emoções dos Pais/Mães em torno da Parentalidade


Muito se fala acerca da parentalidade e daquilo que é esperado: o mito do amor incondicional materno, a necessidade de autoridade e de imposição de limites, a reorganização da vida do casal para abranger uma nova rotina familiar e as necessidades dos filhos, entre outros. No entanto, nem muita atenção é dada às emoções dos pais, em especial àquelas mais difíceis de aceitar, uma vez que podem acabar por ser interpretadas, erroneamente, como sinais de uma má parentalidade.


A transição para a parentalidade é uma fase repleta de expectativas e grandes emoções, podendo ser considerada como um dos momentos mais marcantes na vida de uma pessoa, uma vez que ocorrem grandes mudanças ao nível das suas prioridades e personalidade. A parentalidade traz questões que passam desde o planeamento para a chegada da nova criança a ponderações sobre as mudanças no próprio estilo de vida, algo que pode ser muito stressante. Uma destas grandes mudanças diz respeito à configuração da rotina e de sua ordenação conforme as prioridades dos sujeitos: se antes havia uma busca para o equilíbrio entre o trabalho e o lazer, passa a ser uma prioridade encontrar o equilíbrio entre o trabalho e a família, tentando encontrar também espaço para o lazer, para o casal e para o próprio. Em alguns casos, tais mudanças podem ser mais facilmente realizadas, particularmente quando a família conta com recursos ao nível socioeconómico, bem como com uma rede de suporte social para que possam ser divididas tarefas e garantido o tempo para preservar as diferentes áreas de importância da vida pessoal, isto é, para além do trabalho e da parentalidade, reservar tempo para o casal, para o entretenimento e para o próprio. No entanto, em muitos casos, não acontece esse equilíbrio ótimo e, numa cultura que preza pela excelência em todas as áreas da vida, muitas pessoas podem acabar por se sentir sobrecarregadas, incapazes e mesmo questionadas, e a questionarem-se, em seu comprometimento com aquilo que lhes é importante. Embora exista atualmente um melhor equilíbrio quanto à presença de homens e mulheres no mercado de trabalho e nos papéis de género em torno das tarefas domésticas e da parentalidade, a desigualdade entre os géneros ainda é marcante, na medida em que as mulheres ganham cerca de 14,5% menos do que os homens para os mesmos postos de trabalho em Portugal. Tal, juntamente com ainda prevalentes valores tradicionais e construções ideológicas em torno dos géneros, tornam mais provável que seja a mulher a afetar o seu trabalho em prol da maternidade ou, ainda, que sofra mais consequências ao nível psicológico, podendo culpar-se ou ser culpabilizada por passar menos tempo com os seus filhos e por delegar algumas atividades familiares a terceiros, como avós, empregadas, babysitters ou outros. Por outro lado, a manutenção da vida profissional para as mulheres é de suma importância, tanto ao nível da sua autonomia financeira e independência, como por sentirem-se reconhecidas numa maior gama de relações interpessoais.


Outra mudança significativa na vida dos pais, no momento da transição para a parentalidade, refere-se à vida conjugal, a qual passa a receber menos tempo de dedicação. Aliado ao menor tempo de vida para o casal, alguns homens reportam sentirem-se excluídos, tendo de realizar um luto pela perda da exclusividade do afeto de sua mulher, assim permanecendo até que se configure uma nova relação familiar a três quando a criança já não for tão dependente do constante contacto com a mãe. Para além disso, as expectativas para a nova conjugalidade e para a divisão das tarefas domésticas e laborais, diferencialmente para cada membro do casal, também poderão sofrer grandes transformações, tendo de haver uma comunicação aberta, diálogo e respeito entre o casal para que se alcance uma nova configuração que seja harmoniosa e satisfatória para ambos.


Todas estas transformações podem trazer uma certa ambivalência para a passagem da parentalidade, afinal, como visto, tornar-se-á necessário responder a diversas questões: Como ficará o meu trabalho? Como ficará o tempo que tenho para mim mesmo/a e para meus amigos e vida social? Como ficará a nossa vida conjugal? Teremos tempo juntos/as? Teremos energia e disposição para mantermos uma vida dinâmica? Como serão as nossas viagens? Com quem deixarei os meus filhos quando precisar? Serei bom pai/boa mãe e o que isso quer dizer?... O tornar-se pai e mãe passa também por uma grande questão: o revisitar da própria infância. Esta visita ainda é feita de um modo ainda mais complexo, na medida em que, quando a família não é monoparental, ambos os pais devem refletir acerca da sua própria infância e daquilo que desejam, ou não, trazer para a educação dos seus filhos. Também, acrescida a esta tarefa, é crucial que o casal concorde num modelo parental a ser exercido por ambos, uma vez que grandes dissonâncias entre as práticas dos pais podem acabar por ser muito desorganizadoras para o desenvolvimento da criança. Neste campo, do reviver a própria infância e procurar proporcionar uma infância feliz e saudável à criança, emergem as mais variadas emoções nos pais.


É esperado que diante da tarefa da parentalidade os pais sejam tomados de entusiamo, assim como de ansiedade e insegurança, afinal ser um bom pai ou mãe é algo que se relaciona com as mais profundas experiências e convicções, bem como, em grande medida, com a sua avaliação de valor pessoal. O que é ser um bom pai/boa mãe e porque é tão difícil encaixarmo-nos naquilo que pensamos ser o ideal? Bom, não chegamos prontos, nem tão pouco podemos iniciar como uma tábua rasa!


As diversas relações que foram vivenciadas por um indivíduo ao longo da vida, articulam-se para fomentar um conjunto de expectativas gerais deste sobre os outros, sobre si mesmo e sobre o mundo, no entanto, como pode ser mais profundamente abordado pela temática dos estilos de vinculação, as relações e experiências iniciais vividas na interação entre uma criança e seus familiares são das mais impactantes para a sua forma de ser e estar (ver o artigo “Estilos de Vinculação e Repercussões na Saúde Mental” no blog). Desta forma, na interação com os outros, um indivíduo ativaria aquilo que, por uma perspetiva psicanalítica, é conhecido pelo fenómeno da transferência, em que um sujeito reatualiza, no aqui-e-agora, experiências vividas no passado. A transferência, em si mesma, passa despercebida pelo indivíduo, sendo um fenómeno inconsciente o qual, com análise e autoreflexão, o indivíduo passa a estar consciente desta, a permitir uma reapropriação sobre a sua própria forma de ser, podendo estar mais conectado à realidade concreta da atualidade. A reflexão sobre a própria infância é crucial na parentalidade, na medida em que torna possível não somente melhor empatizar com as emoções e necessidades de sua criança, como também compreender muito das suas próprias reações emocionais a ela em determinadas ocasiões e, inclusive, refletir acerca do impacto da própria personalidade no desenvolvimento do seu filho. Por exemplo, imagine uma situação em que ficou muito irritado com o seu filho, questione-se, o que aconteceu para o irritar tanto? O que fez com que não pudesse empatizar e acolher os sentimentos da criança naquele momento? Como faziam consigo quando agia daquele modo? O que poderá ocorrer com ela se sempre reagir assim? Por vezes, podemos não querer, ou mesmo conseguir compreender as emoções dos nossos filhos por nos fazerem lembrar de como nos sentimos na altura, o que acabaria por trazer certo sofrimento. Inconscientemente, estaremos a interagir com o nosso filho não pela pessoa individual que ele é no aqui e no agora, mas sim, a reagir a situações que evoquem o nosso passado. Outras vezes, podemos ter insatisfações com antigas práticas dos nossos próprios pais, no entanto, relativizar tal situação para não lidar com o sofrimento, o que faz com que, não reconhecendo o impacto de antigas práticas em nós mesmos, reproduzimo-las sem consciência. Aqui cabe a questão, o que fizeram consigo que não quer repetir, o que quer fazer diferente? Ou por outro lado, o que fizeram consigo que gostaria de fazer da mesma maneira com o seu filho? Pode ser extremamente difícil identificar no próprio comportamento parental práticas que antes tanto recriminava, mas o reconhecer e retaliar é sempre a melhor solução. O importante é não focar no comportamento em si, mas na consciência do seu significado e no próprio compromisso com o bem-estar e felicidade do seu filho. Afinal, não existe maternidade ou paternidade perfeitas ou algo como uma boa mãe/pai ou má mãe/pai de modos absolutos, mas sim, seres humanos com a difícil e bela tarefa de dar o seu melhor no sentido de educar filhos felizes e saudáveis, ainda que, com todo um pano de fundo histórico e emocional pessoal, para além de diversas expectativas culturais, seja natural incorrer em erros. Outra reflexão pertinente a se realizar, nesta busca de estar aberto ao novo e à construção do seu ideal como pai, é questionar o modo como se responde às emoções de seu filho: busca o compreender e o auxiliar a expressar-se de modo mais assertivo ou reprime os seus sentimentos? Ou ainda, reage ao sofrimento de seu filho de um modo dramático? É importante questionar isto, pois os pais devem ter, em alguma medida, uma postura contentora com os filhos, como colocado pelo psicanalista infantil Donald Winnicott. Ser capaz de atuar como um contentor implica ter a capacidade de testemunhar as dores e emoções de seus filhos, compreender o motivo dessas emoções e talvez até colocar estas em palavras para eles, os auxiliando a encontrar formas adequadas de responder às suas emoções e, tudo isto, sem ser punitivo ou a sofrer demasiado com as suas dores. Parece muito exigente, afinal, o que se espera é quase como a postura de um psicoterapeuta e, na parentalidade, a neutralidade é inalcançável; entretanto, independente da emoção que se está a sentir ou mais perturbador que um pensamento lhe possa parecer, o que importa é como se escolhe agir. Nos ecos de nosso passado e frustrações, bem como nas diferentes contingências que façam com que atuemos de determinado modo, é sempre bom lembrar, como muito bem colocado pelo filósofo Jean Paul Sartre: “não importa o que fizeram com você, mas sim o que você faz com o que fizeram de você”.

Sugestões


  • Fazer uma autoreflexão da própria infância e como esta pode ter impacto nas suas expectativas e receios diante dos seus próprios filhos.

  • Refletir se as suas reações e formas de estar são respostas adequadas ao seu filho como ele é ou se são influenciadas por experiências pessoais passadas.

  • Buscar ter uma posição aberta, empática e voltada para a busca de resolução de conflitos com todos os membros da família.

  • Evitar pensamentos extremistas e dicotómicos (bom/mal): “Somos maus pais porque pensamos que já não o conseguimos aturar” e considerar que é natural ter pensamento ambivalentes, não fazendo de si um mau pai/mãe.

  • Evitar canalizar todo o foco da sua vida à criança ou a sentir-se pressionado a cumprir determinadas expectativas de género (ex. o homem trabalhador e a mulher maternal e doméstica). Experimente refletir o que é importante para si e para o seu parceiro/a e como pode ser organizada a vida do casal e da família para que ambos tenham as suas necessidades e projetos satisfeitos.

  • Investa no autocuidado para prevenir a exaustão parental, procure tirar tempo para si (mesmo que seja pouco) e para fazer coisas que lhe transmitam bem-estar.

  • Não existe uma “forma certa” de ser pai ou mãe ou uma solução única para os desafios da parentalidade, procure a sua própria forma de ser pai ou mãe, a que melhor se ajuste ao vosso bem-estar e ao dos vossos filhos. Olhe para si com atenção e elogie-se, identifique as suas qualidades.

  • Identifique os seus pensamentos negativos e procure avaliar a sua veracidade, confrontando-os e desconstruindo-os quando não tiverem fundamento real ou parecerem extremistas, procure pensamentos alternativos positivos (ex. “Não tenho mesmo jeito nenhum para isto!” à“Isto não é verdade, até nos divertimos bastante quando conto histórias e brincamos”).

  • Ao receber críticas, particularmente associadas a aspetos da sua parentalidade que possam, em especial, ativar certa reatividade por evocar aspetos conflituosos da vida pessoal, procure não compreendê-las como um ataque pessoal, mas como uma oportunidade de autoreflexão, de desenvolvimento pessoal e como forma de melhor conhecer e ligar-se aos seus familiares.

  • Cuidar de um filho (ou mais) pode ser muito stressante, e este stress pode tornar-se um problema quando temos dificuldade em lidar com o que acontece ou perdemos o controlo. A Ordem dos Psicólogos Portugueses disponibiliza uma Checklist para refletir sobre o seu nível de stress parental:

https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/checklist_stresse_parental.pdf


  • Procure por ajuda sempre que precisar, aceite e fale sobre as suas emoções e partilhe as suas experiências de modo aberto e sincero com aqueles em quem confia.


Referências


Agulhas, R. (2020). Manual de primeiros socorros para pais e filhos. Ordem dos Psicólogos Portugueses. Ed. Ideias com História.

Barham, D., Joan, E., & Vanalli, A. C. G. (2012). Trabalho e família: perspectivas teóricas e desafios atuais. Revista Psicologia Organizações e Trabalho, 12(1), 47-59.

Bornholdt, E. A., Wagner, A., & Staudt, A. C. P. (2007). A vivência da gravidez do primeiro filho à luz da perspectiva paterna. Psicologia Clínica, 19, 75-92.

Costa, T. (2007). Psicanálise com crianças. Editora Schwarcz-Companhia das Letras.

Eizirik, C. L., & Bassols, A. M. S. (2013). O Ciclo da Vida Humana-: Uma Perspectiva Psicodinâmica. Artmed.

Ferreira, V., & Sartre, J. P. (1961). O existencialismo é um humanismo

Perry, P. (2019). The Book You Wish Your Parents Had Read (and Your Children Will Be Glad That You Did): THE# 1 SUNDAY TIMES BESTSELLER. Penguin UK.




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