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Medos e Pesadelos Infantis

Atualizado: 17 de jan. de 2023


Obra : Criança com Pomba, de Pablo Picasso (1901).


O que é?

O medo é uma emoção inata e essencial em todos os seres humanos, o que nos mantém precavidos, a evitar e a fugir de situações perigosas. É ainda uma emoção que pode estar associada a diferentes contextos ou objetos, variando desde o medo de estímulos que, evolutivamente representaram uma ameaça à espécie humana, como por exemplo, o medo de cobras, de ser deixado sozinho, do escuro, entre outros, até o medo de estímulos que, a princípio, são inofensivos, como o medo de cães, de cavalos, de palhaços, etc. Mas o que é exatamente o medo?


O medo, como todas as emoções, tem três componentes, uma componente neurofisiológica, uma comportamental e uma cognitiva.


1) a nível neurofisiológico, há a ativação de respostas biológicas no corpo reguladas pelo sistema nervoso e, no caso do medo, estas respostas visam preparar o indivíduo para a luta ou para a fuga (ex. batimento cardíaco acelerado, respiração acelerada para maior oxigenação e inibição do sistema digestivo para que o sangue esteja a irrigar mais os músculos, libertação de hormonas como a adrenalina, sentir-se mais agitando e tenso, tremer sem ter frio, ficar com a boca seca, ter tonturas, sentir um nó na garganta, aperto no peito, suar, etc.).


2) a nível comportamental, o medo expressa-se pelas ações de luta ou fuga, assim como pelas expressões faciais que explicitam esta emoção (ex. expressões faciais de espanto, gritar, bater, fugir/evitar uma situação);


3) a nível cognitivo, há o processamento da informação daquilo que se está a passar, permitindo reconhecer e nomear o que se sente para além de estabelecer relações entre aquilo que se está a sentir e as suas causas, e até, consequências (ex. expressar verbalmente “estou com medo!”, dizer que tem medo de cavalos, pedir para deixar uma luz de presença por ter medo do escuro, dizer que que não quer sair de casa por causa dos cães que acabarão por atacar, entre outros). Ao nível cognitivo, quando se está com medo a atenção também fica restrita ao objeto temido, focando-se em como fugir ou evitar a situação.


No entanto, com vista a detectar e auxiliar as crianças a gerirem os seus medos, é importante ter em consideração o seu nível de desenvolvimento, uma vez que, enquanto algumas crianças podem verbalizar o seu objeto de medo, as crianças mais pequenas que ainda não tenham este nível de compreensão da resposta emocional ou de suficientes competências ao nível da linguagem, manifestarão a sua emoção sobretudo a nível fisiológico e comportamental, como por exemplo com uma grande ansiedade e birras. Outras vezes, como as crianças não têm os recursos suficientes para elaborar as suas emoções, muitas vezes estas podem ser somatizadas, isto é, expressas enquanto sintomas no corpo. O medo pode, por exemplo, apresentar-se também por meio de enxaquecas, dores de barriga, entre outros. Muitas vezes, estes mesmos sintomas fazem com que a criança não necessite enfrentar a situação receada, o que é de grande alívio para elas (afinal, livram-se das sensações da ansiedade bem como das más consequências imaginadas), de modo que, mesmo que sem consciência disso, os sintomas podem se repetir mais vezes na criança. Por exemplo, a Maria receia sair de perto da mãe, a quem é muito ligada. Como as dores de cabeça e de barriga fazem com que ela fique em casa e acabem por impedir que ela se afaste da mãe, é possível que estas se repitam mais frequentemente. É preciso logo estar atento ao comportamento e sintomas da criança e tentar detectar que estímulos podem estar a desencadear estes comportamentos e/ou sintomas. Outras vezes, na ausência de sintomas, a mesma criança poderia fazer enormes birras na hora de separar-se da mãe, de modo que esta acabasse por desistir, assim reforçando o comportamento da birra pela criança ter sucedido no seu objetivo.

Como identificar?

Algumas vezes os medos são facilmente identificados, por exemplo, quando a criança se mostra aflita diante de cães depois de ter visto ou vivido o episódio de um ataque de um cão, ou medo de água depois de ter tido uma má experiência na piscina; no entanto, outras vezes, a natureza do medo da criança pode ser mais simbólica, exigindo uma interpretação para a sua compreensão ou uma observação cautelosa de suas brincadeiras, uma vez que ao brincar, as crianças encenam situações angustiantes, visando lidar com medos e ansiedades que de outra forma não seriam capazes. Por exemplo, uma criança que ficou muito tempo na incubadora pode expressar o seu medo da solidão através do medo de locais vazios, ou de locais fechados que a impeçam de ir ter com aqueles que ama. Em outro caso, uma criança que tem medo da autoridade do pai, pode expressar tal ao brincar com a figura de um leão grande que persegue um filhote ou dramatizar situações com bonecos. Há também outro medo, comum nos primeiros anos, que é o medo de pesadelos. Há um pico na ocorrência de pesadelos (em especial, monstros e homens maus que os perseguem) nas crianças com quatro a seis anos, sendo mecanismos inconscientes comuns em que são expressos, simbolicamente, o medo que as crianças têm da punição e do castigo por alguns de seus pensamentos. Por exemplo: a criança está muito brava com o pai e lhe deseja mau, mas depois teme o castigo pois pode ainda não discernir os seus pensamentos e fantasias da realidade.


O que fazer?

A solução sempre passará por auxiliar seu filho a encarar a situação, uma vez que o evitamento só piorará o caso. No entanto, a exposição ao estímulo ou contexto temido deve ser feita gradualmente e com cuidado, para também não gerar uma resposta emocional muito intensa de medo e stress.


1) Seja Paciente e Tranquilize-o: Um dos aspetos mais importantes é transmitir ao seu filho a confiança na capacidade dele de enfrentar a situação, sendo positivo e encorajando-o, para além de lhe transmitir a certeza de que a situação não é realmente perigosa. No entanto, se o medo for de um contexto específico, como a escola, é necessário perceber se a criança não está a sofrer bullying e então intervir junto aos professores e oferecer estratégias para o seu filho melhor confrontar a situação. Caso o receio de seu filho for a separação ou a entrada num novo contexto (como creche, nova escola, aula de natação, de ballet, etc.) uma boa forma de intervir é assegurar-lhe o reencontro e que a entrada no novo contexto será recompensadora: “Eu sei que a escola pode assustar um bocadinho, mas tenho a certeza de que vais ser corajoso e que cada dia será mais fácil, farás novos amigos e te divertirás. Quando for te buscar ficarei muito feliz de saber do seu dia-a-dia e novas atividades.”


2) Elogie o comportamento corajoso do seu filho: Sempre que o seu filho enfrentar uma situação desconfortável, dirija-lhe elogios pela sua coragem. Por exemplo: “Estás a ficar um rapaz muito valente! Foste muito corajoso hoje no consultório, estou muito orgulhoso”. É preciso promover e reforçar comportamentos em que o seu filho queira explorar, arriscar-se (desde que seja algo seguro), fazer novos amigos ou lidar com situações autonomamente.


3) Faça uma tabela de autocolantes: Uma tabela de autocolantes ou algum outro sistema ou atividade de recompensas, por exemplo, juntar um número de autocolantes por comportamentos corajosos para se poder ganhar uma prenda, pode facilitar muito a superação de medos do seu filho. Pode ser utilizada pra comportamentos corajosos, como a criança ir para o jardim de infância e separar-se sem fazer birras. Se o seu filho for muito inibido na sala de aula, o sistema de reforços usado em casa também poderá ser utilizado pela educadora ou pela professora para encorajar a interação. No entanto, tal método pode ser utilizado apenas como motivacional e nunca separado das explicações do valor de certos comportamentos e da valorização emocional. Ao apenas oferecer recompensar, estará a ensinar o seu filho a ter responsabilidade não por compreender e desejar tal, mas apenas para responder a um agrado externo.


4) Ignore as birras e reduza a atenção às expressões psicossomáticas dos medos: As birras e expressões psicossomáticas são meios de evitar a situação temida e logo deve-se buscar um equilíbrio entre apoiar, consolar e não dar demasiada atenção a estas expressões de medo. Esta parte pode ser difícil para os pais, especialmente ao separar-se de seus filhos quando vêm que eles estão aflitos, mas caso permanecer por muito tempo a acalmar a criança, ela aprenderá que afinal, as birras resultam. Aqui seguem alguns exemplos: ao deixar o seu filho no jardim de infância “Eu sei que vais gostar da escolinha hoje (a criança começa a birra). Olha, está ali o Bruno, e está com aquele camião que tu gostas (distração). Eu venho te buscar ao meio-dia e quero saber o que fizeste hoje (se a birra continuar, dizer que tens de ir e quer que ele aproveite o dia e retire-se)”; quando a criança se queixa sempre de dor de barriga quando tem de ir à escola (e isto claro que se não se verificar de fato algum problema fisiológico) “Tenho muita pena que te doa a barriga. Tens de comer uma sandes daqui a bocado na escola. Isso a mim ajuda-me a sentir melhor quando tenho dor de barriga (a partir daí, ignorar outras referências à dor de barriga e ajudar a criança a preparar-se para a escola)”. O mesmo aplica-se para o momento da criança ir par a cama “Vou deixar uma luzinha acesa e vou para a sala. Eu sei que és muito valente e crescido e vais ficar na cama e adormecer (mesmo que ele choramingue, deve sair do quarto e ignorar o choro)”. Neste último caso, pode ser bom deixar com a criança alguma coisa que a faça lembrar-se de si e saber que nada de mau lhe vai acontecer. Uma estratégia que pode ser utilizada é deixar alguma coisa no quarto da criança que possa ser alterada durante a noite para que, quando a criança acorde, perceba que você esteve presente a zelar por ela, por exemplo, ao colocar a criança à dormir, colocar um ursinho a olhando e dizer que depois vai voltar para ver ela dormir e também colcoar o urisnho a dormir. Ao acordar, quando a criança vir o ursinho deitado com ela ou em uma cmainha feita para ele, ficará feliz e mais confiante da presença da mãe.


5) Proporcione às crianças rotinas previsíveis de separação e reencontro: A estabilidade nas rotinas ajuda as crianças a sentirem-se mais seguras e com maior controlo da situação. É muito importante sempre antecipar a criança de momentos de separação “ O Pai vai sair daqui a 15 minutos, até lá, podemos brincar um pouco” e também assegurar o reencontro “mas volto de noite, na hora de jantarmos juntos” ou “quando eu voltar já vais estar a dormir, mas vemo-nos amanhã ao pequeno almoço”. É importante também sempre mostrar entusiasmo e alegria ao reencontrar o seu filho pequeno, mesmo que esteja com outras preocupações na cabeça, pois ele poderá achar que o seu desânimo tem alguma coisa a ver com ele. Quando possível, interaja com as pessoas, educadoras que passam o dia com o seu filho, assim ele se sentirá mais à vontade naquele cenário.


6) Dê o exemplo e não se mostre receoso: Mesmo quando tiver ansioso, não demonstre isso à frente de seu filho. As crianças aprendem muito pela observação de comportamentos. A mesma coisa se aplica às suas próprias relações, sejam conjugais ou com outros membros da família. É preciso manter um ambiente de harmonia familiar e evitar discussões complexas e conflito à frente de seu filho, isto o tornará inseguro.


7) Reforce a exposição: Se o seu filho tem medo de determinada situação (ex: medo de cães), experimente expô-lo a essas situações em pequenas doses, reforçando-o de cada vez. Por exemplo, iniciar por ver filmes de cães em que estes sejam amorosos, depois, ao passear com o seu filho na rua, comentar sobre como outras crianças fazem festas nos cães e parecem contentes com isso, depois busque por um amigo que tenha um cão pequeno e muito meigo para estar no mesmo ambiente que seu filho, faça festas no cão, até que gradualmente, por iniciativa própria (nunca forçar ou pedir à criança para aproximar-se daquilo que teme), seu filho aproxime-se para fazer festas, tendo percebido, pelas situações anteriores, que o seu medo não era compartilhado por outros e que na verdade poderia ter boas experiências com os cães. Depois, elogie o seu filho por ter conseguido aproximar-se do cão, apesar dos receios.


8) Ensine-lhe o auto-diálogo positivo: Ensine algumas autoafirmações ao seu filho, para o auxiliar a lidar com seus medos. Por exemplo: “Eu sou valente e sou capaz de fazer isso”, “Vou conseguir, vai correr tudo bem”, “Eu sou crescida, não preciso de ninguém a tomar conta de mim no escuro”, “Eu sou corajosa, na creche vou primeiro brincar, cantar, tomar lanche e depois a mãe vem me buscar para o almoço”.


9) Exercícios de imagens positivas e descontração: Ensine técnicas de respiração calmantes ao seu filho (inspirar devagar pelo nariz e expirar pela boca) e a estratégia de visualizar imagens positivas em sua mente, indo desde imaginar um local e situação agradável (como a praia), o seu “lugar feliz”, à imaginar-se contente e sucedido no contexto que receia (a brincar com amigos contente na creche). Para isso é antes essencial ensinar as crianças a identificarem as sensações de medo e ansiedade para então adotarem estas estratégias. Pode também ajudar a criança a encontrar outras estratégias de auto-regulação, como por exemplo, apertar um peluche que goste.


10) Recursos educativos: Há alguns livros e atividades que ensinam as crianças a identificarem, compreenderem e lidarem com as emoções, dentre elas o medo. Um deles é o livro “Eu controlo as emoções!” de Paulo Moreira e outro é “O Livro das Emoções – Um livro que explica às crianças as emoções e como lidar com elas” de Filipa Sáraga.


11) Estas últimas estratégias referem-se à formas de lidar com os pesadelos: As crianças têm dificuldade em discernir as suas fantasias e sonhos da realidade, de modo que os pesadelos são para elas muito assustadores. Tendo isto em consideração, não será possível consolar a criança a dizer que “foi só um sonho, que não é real”, acabando somente por deixá-la mais aflita a não ter seus medos reconhecidos e ter de lidar com eles sozinha. Desta forma, a melhor solução é entrar na fantasia da criança e modificá-la de modo que deixe de ser ameaçadora. Imagine que a criança tem medo de um monstro, peça para ela descrever e desenhar o monstro e, depois, juntos, adicionem elementos a ele de modo que ele se torne engraçado e não ameaçador. Por exemplo, lhe adicione uma maquilhagem engraçada, um nariz de palhaço, patins coloridos, uma roupa engraçada, entre outros. Poderá dizer “Eu sei quem é o monstro, é o monstro engraçado! Ele só se aproxima a querer brincar. Ele não é perigoso.” É essencial assegurar à criança que nada de mal lhe vai acontecer. Outra estratégia é aproveitar da grande imaginação das crianças, dizendo-lhes que elas podem ter poderes, como desparecer, voar, lançarem feitiços e ficarem muito fortes diante do monstro. Podes ainda criar rituais com a criança para afastar os medos, como por exemplo: fazer uma água spray que afasta os monstros, varrer os monstros para fora do quarto, rezar para afastar os fantasmas. Caso a criança vier ter ao seu quarto quando tiver um pesadelo, é essencial levá-la de volta ao seu quarto e lá confortá-la, ela precisa saber que sabe enfrentar o seu medo sozinha. Junto a isto, pode ser também importante adicionar uma luzinha de presença com um regulador, diminuindo a sua intensidade com o tempo.


Por fim, é essencial aqui destacar, que se estiver com muita dificuldade para gerir o medo de seu filho, e se este for muito intenso, a impactar na sua aprendizagem, atenção, bem-estar e socialização, a melhor coisa a se fazer é procurar por ajuda junto à um psicólogo e/ou psicoterapeuta infantil.


Referências

Moreira, P., & Zapruder. (2009). Emoções e Sentimentos Ilustrados: Para Trabalhar com Crianças entre os 4 e os 10 anos.


Webster-Stratton, C. (2010). Os Anos Incríveis: Guia de resolução de problemas para pais de crianças dos 2 aos 8 anos de idade (MI, Donnas Botto, Transl.; MF Gaspar & MJ Seabra-Santos, Revisão científica). Braga: Psiquilibrios Edições (Original publicado em 2005).

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