Quando a Excelência Deixa de Ser uma Escolha
- analuciamarsenise
- há 3 dias
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Obra: Melencolia I , Albrecht Dürer - 1514
Existem pessoas que parecem ter construído uma relação particularmente íntima com a eficiência, com a produtividade e com a necessidade de aperfeiçoamento. São pessoas que frequentemente estabelecem para si mesmas padrões elevados, que investem intensamente naquilo que fazem e que dificilmente se satisfazem com a sensação de que algo poderia ter sido realizado de uma maneira melhor. Não necessariamente porque sejam incapazes de reconhecer aquilo que conquistaram, mas porque a própria experiência de realização parece vir acompanhada da percepção de que ainda existe algo a ser desenvolvido, corrigido ou alcançado.
Em muitos casos, essa disposição constitui uma força importante. Há algo de profundamente saudável em desejar desenvolver as próprias capacidades, em buscar autonomia, em querer construir uma vida que corresponda aos próprios desejos e em possuir um sentido de responsabilidade diante das escolhas que se faz. A possibilidade de estabelecer padrões elevados para si mesmo está profundamente relacionada à autoestima, à percepção de competência e à capacidade de investir na própria vida.
Nem toda exigência é excessiva, assim como nem toda ambição precisa ser compreendida como uma defesa contra alguma falta.
Existe, contudo, uma diferença importante entre desejar realizar algo de maneira excelente e experimentar a necessidade de fazê-lo dessa maneira para sentir-se suficientemente seguro acerca de si mesmo e de sua vida.
É possível que, em algum momento, aquilo que inicialmente se apresentava como uma escolha tenha adquirido uma dimensão de necessidade. A pessoa não apenas deseja ser competente, mas sente que precisa ser competente; não apenas deseja corresponder às próprias expectativas, mas experimenta uma dificuldade significativa em tolerar a possibilidade de não corresponder à elas. O erro deixa então de ser somente uma ocorrência inevitável da experiência e passa a adquirir um significado maior, como se revelasse alguma insuficiência que precisa ser imediatamente reparada. É justamente nessa região que a discussão sobre perfeccionismo se torna mais complexa.
A literatura contemporânea não trata o perfeccionismo como um fenómeno unitário. Há uma diferença entre a busca por padrões elevados e aquilo que pode ser compreendido como preocupações perfeccionistas, que envolvem preocupação excessiva com erros, dúvidas sobre a própria capacidade, discrepância entre aquilo que se é e aquilo que se acredita que deveria ser e uma avaliação excessivamente condicionada pelo desempenho. Vale também ressaltar que também existem perfeccionistas que não sofrem com estas questões de mais baixa auto-estima, não se pondo em causa por meros erros; mas que têm uma inquietude incessante voltada para o constante aprimoramento pessoal. Necessitam ter as coisas todas sob controle. Estudos sobre burnout sugerem, inclusive, que não é simplesmente a existência de padrões elevados que apresenta a relação mais consistente com o esgotamento, mas sobretudo a dimensão mais autocrítica e preocupada do perfeccionismo, preocupações que transcendem o valor próprio, mas vão para uma necessidade profunda de se “garantirem”.
Essa distinção é importante porque, quando falamos de pessoas muito produtivas, inteligentes e ambiciosas, corremos o risco de patologizar justamente características que podem ser fundamentais para a construção de uma vida significativa. O problema não está necessariamente em querer muito de si. O cerne da questão pode estar na impossibilidade de continuar reconhecendo valor em si mesmo quando aquilo que se desejava não foi alcançado ou por nunca haver satisfação suficiente com o que já se tem e é.
A necessidade de ser suficientemente bom
É possível pensar que, para algumas pessoas, a busca pela excelência tenha se desenvolvido em diálogo com experiências muito precoces nas quais o valor pessoal esteve, de alguma maneira, associado ao desempenho.
Isso não significa necessariamente ter crescido em uma família explicitamente crítica, na qual os pais exigiam perfeição ou retiravam amor diante de qualquer fracasso. As experiências pelas quais uma criança constrói a compreensão de si mesma são frequentemente muito mais subtis. Ela pode ter percebido que determinadas características eram particularmente valorizadas, que o reconhecimento surgia com maior intensidade diante de determinadas conquistas ou que ser competente, responsável e independente constituía uma maneira particularmente eficaz de obter aprovação e reconhecimento.
Algumas pessoas crescem, portanto, aprendendo que são aquelas que conseguem. São aquelas que não precisam de muita ajuda, que resolvem seus próprios problemas, que apresentam bons resultados, que correspondem às expectativas e que, de alguma maneira, conseguem produzir uma versão de si mesmas que parece merecer reconhecimento.
Outras desenvolvem uma autonomia semelhante por razões bastante diferentes. Em vez de terem sido excessivamente incentivadas a realizar, podem ter aprendido que não podiam contar muito com os outros. É possível que, enquanto crianças e jovens, não puderam contar com a compreensão e disponibilidade afetiva dos pais quando mais precisavam. Assim, se adaptaram, desenvolvendo precocemente recursos de autorregulação, assumindo responsabilidades ou compreendendo que esperar pela disponibilidade de alguém poderia resultar em frustração. A independência, nesse contexto, pode ter sido uma conquista necessária e profundamente adaptativa.
O problema surge quando uma estratégia que foi adequada a uma determinada realidade do passado permanece organizando a experiência mesmo depois de a realidade ter mudado. A pessoa que aprendeu muito cedo que precisava resolver as coisas sozinha pode chegar à vida adulta com uma dificuldade genuína de depender dos outros, mesmo quando já não existe uma ameaça concreta associada à dependência. Aquele que encontrou segurança na competência pode passar a buscar segurança através de uma competência cada vez maior. E aquele que descobriu que era possível evitar a sensação de vulnerabilidade mantendo tudo sob controle pode experimentar a delegação não simplesmente como uma distribuição de tarefas, mas como uma exposição a algo que não consegue garantir.
É possivel que seja nesse ponto em que autonomia e hiperindependência começam a se aproximar sem serem a mesma coisa. A autonomia pressupõe a possibilidade de escolher quando fazer sozinho e quando recorrer ao outro. A hiperindependência, ao contrário, pode tornar a dependência tão difícil de tolerar que a pessoa permanece responsável por praticamente tudo, mesmo quando isso já não corresponde às suas necessidades ou aos seus próprios interesses. Ela não necessariamente acredita que os outros sejam incapazes, mas prefere se garantir, sabendo que ela fará as coisas direito. Pode simplesmente não conseguir relaxar quando algo importante deixa de estar sob sua responsabilidade direta. Há uma racionalidade muito convincente por trás da dificuldade de delegar.
“Se eu fizer, sei exatamente como foi feito.”
“Se eu acompanhar, consigo corrigir antes que se torne um problema.”
“Se eu delegar, talvez tenha de refazer depois.”
Em determinadas situações, essas afirmações podem ser verdadeiras. Pessoas competentes frequentemente têm critérios elevados porque desenvolveram conhecimento suficiente para reconhecer diferenças de qualidade que outras pessoas talvez ainda não consigam perceber. Mas existe um momento em que a competência deixa de ser utilizada para avaliar a realidade e passa a ser utilizada para justificar a necessidade de controlá-la.
É possível conhecer profundamente uma área e, ainda assim, precisar aprender que aquilo que é diferente não é necessariamente inadequado. É possível possuir padrões elevados e reconhecer que o trabalho de outra pessoa pode atender suficientemente bem a uma determinada finalidade sem precisar reproduzir exatamente o modo como você faria. Delegar implica uma experiência que pode ser particularmente difícil para aqueles que organizaram a própria segurança em torno da competência: a experiência de não saber exatamente o que acontecerá.
Quando delegamos, perdemos uma parcela do controle sobre o processo. Precisamos tolerar que outra pessoa tome decisões, organize o tempo de uma maneira diferente, estabeleça outras prioridades e, eventualmente, cometa erros que nós teríamos evitado. Essa experiência pode ser especialmente difícil para quem aprendeu que o controle é uma forma de segurança. Nesse caso, o problema não está necessariamente na falta de confiança objetiva no outro. Às vezes, existe algo mais profundo acontecendo: a dificuldade em tolerar a própria posição de quem não controla. E isso pode produzir um paradoxo importante na liderança. Quanto mais competente uma pessoa se torna, maior pode ser a sua capacidade de assumir responsabilidades. Mas, se ela não desenvolve simultaneamente a capacidade de compartilhar essas responsabilidades, a própria competência pode fazer com que se torne progressivamente sobrecarregada. Ela passa a ser aquela pessoa que todos procuram porque resolve. E, justamente por resolver, recebe cada vez mais coisas para resolver.
O custo de ser um overachiever
Existe uma espécie de reconhecimento social associado a esse funcionamento que torna particularmente difícil perceber seus custos.
Vivemos em uma cultura que frequentemente valoriza a produtividade, a otimização e a ideia de que deveríamos estar continuamente desenvolvendo uma versão melhor de nós mesmos. Para determinadas pessoas, essa lógica encontra uma disposição psicológica já existente e produz uma combinação particularmente poderosa: quanto mais realizam, mais percebem aquilo que ainda poderiam realizar. A realização, portanto, não encerra o movimento; ela o prolonga. A promoção conduz a um novo objetivo; a formação concluída conduz a outra formação; o projeto bem-sucedido torna-se referência para aquilo que deverá ser feito em seguida. Mesmo o descanso pode transformar-se em mais uma tarefa a ser realizada adequadamente, como se fosse necessário aprender a descansar da maneira correta, cuidar de si da maneira correta, organizar a rotina da maneira correta. A pessoa passa a viver em uma espécie de relação permanente com a própria potencialidade: Está sempre se tornando, sempre desenvolvendo, sempre procurando a sua melhor versão. E há algo paradoxal nisso, porque a busca pela própria realização pode começar justamente a impedir a experiência de sentir-se realizado.
A literatura sobre burnout ajuda a compreender uma parte dessa dinâmica. O problema não parece residir simplesmente no investimento intenso ou na busca por excelência, mas na combinação entre exigências elevadas e uma relação autocrítica com o próprio desempenho. Quando a pessoa sente que nunca corresponde suficientemente ao padrão que estabeleceu, o trabalho deixa de ser apenas um lugar de realização e passa também a ser um espaço no qual ela precisa continuamente confirmar a própria competência. Para além disso, com muito dessas pessoas tendo aprendido a não depender dos outros e, muitas vezes que o amor que recebiam era condicional, podem ter imensa dificuldade em dizer não. É possível, então, que alguém seja extremamente bem-sucedido e, ao mesmo tempo, profundamente inseguro, seja consigo próprio e/ou com a vida, com o futuro. Não porque não tenha evidências objetivas de sua competência, mas porque nenhuma quantidade de evidência parece suficiente para produzir uma sensação duradoura de segurança.
Quando não há espaço para não saber
Talvez uma das dimensões mais difíceis desse funcionamento seja a relação com a vulnerabilidade. Pessoas muito eficientes frequentemente desenvolvem uma relação sofisticada com problemas: identificam rapidamente aquilo que precisa ser feito, organizam recursos, antecipam obstáculos e encontram soluções. É uma capacidade valiosa. Mas a vida não é constituída apenas por problemas que podem ser solucionados. Há experiências diante das quais a competência não produz uma resposta imediata. Existem perdas que não podem ser organizadas, relações que não podem ser controladas, incertezas que não podem ser eliminadas e situações nas quais depender do outro é inevitável.
Nessas circunstâncias, talvez a dificuldade não esteja em não saber o que fazer. Talvez esteja em tolerar não saber e confiar. O mesmo pode acontecer nos relacionamentos. Uma pessoa que aprendeu a construir segurança através da própria competência pode sentir-se confortável ocupando o lugar daquele que oferece, organiza e sustenta, mas experimentar desconforto quando precisa receber, esperar ou permitir que o outro assuma uma responsabilidade.
Existe uma diferença entre ser independente e precisar ser independente. Na primeira situação, a autonomia é uma possibilidade. Na segunda, ela pode tornar-se uma exigência interna. E aquilo que parece força para quem observa de fora pode, internamente, ser vivido como uma impossibilidade de descansar na presença do outro.
O que permanece quando o desempenho deixa de responder por nós?
Talvez uma das questões mais importantes para essas pessoas seja justamente aquela que aparece quando o trabalho já não consegue responder por tudo. Quem sou eu quando não estou produzindo? Quando não estou resolvendo? Quando não estou sendo competente? Quando não estou sendo admirada/o pelo que faço? Quando não existe uma meta imediatamente diante de mim? E se eu adoecer e não puder fazer as coisas, existe alguém que dará conta por mim?
Estas perguntas podem ser particularmente difíceis porque, para algumas pessoas, a profissão não é apenas uma parte da identidade. Ela se tornou o principal lugar através do qual a identidade é experimentada. Não há nada de necessariamente problemático em encontrar sentido no trabalho. Para muitas pessoas, trabalhar, criar, investigar, liderar ou construir algo constitui uma dimensão central da existência. A questão aparece quando se torna difícil encontrar valor em qualquer parte de si que não esteja relacionada à realização. Nesse momento, uma pausa pode ser vivida como vazio, o descanso pode produzir culpa, o ócio pode parecer improdutivo. E uma vida que não está constantemente se desenvolvendo pode começar a parecer uma vida que está sendo desperdiçada. Mas como fica o interior? Com o foco sempre no controle e na garantia, como usufruir do presente? Talvez seja necessário perguntar, então, se a busca incessante pela própria melhor versão permite também algum espaço para reconhecer a pessoa que já existe. Existe amor por si próprio e pela vida no agora? Com suas capacidades e limitações, com aquilo que sabe e aquilo que ainda não sabe, com aquilo que consegue sustentar e aquilo diante do qual precisa do outro?
Excelência não precisa significar exaustão
O objetivo não é abandonar a ambição, reduzir os próprios padrões ou convencer alguém que sempre buscou excelência de que deveria contentar-se com menos. Seria uma conclusão demasiado simples para uma questão que é, justamente, mais complexa.
É antes necessário compreender qual função a excelência exerce na vida daquela pessoa. Quando ela é expressão de curiosidade, criatividade, autonomia, prazer e investimento em si mesma, pode constituir uma força extraordinária. Há uma diferença entre alguém que deseja realizar muito porque encontra sentido na realização e alguém que precisa realizar muito para conseguir sentir que possui valor ou para ter alguma confiança no fluxo da vida.
A mesma produtividade pode nascer de lugares internos completamente diferentes. A mesma liderança pode ser expressão de potência ou de necessidade de controle. A mesma independência pode significar autonomia ou dificuldade de confiar. O mesmo padrão elevado pode representar amor pelo próprio trabalho ou medo de descobrir que, sem a excelência, talvez não se saiba muito bem quem se é.
Uma importante pergunta a se fazer é: “O que acontece comigo quando não consigo corresponder às exigências que estabeleci?”
Se existe espaço para o erro, talvez o padrão seja uma escolha. Se não existe, talvez seja uma prisão. Se é possível delegar e recuperar depois, talvez exista autonomia. Se delegar produz angústia, talvez exista uma dor mais profunda que mereça ser compreendida… Se o trabalho é uma parte importante de quem somos, isso pode ser profundamente saudável. Mas se, sem o trabalho, não sabemos quem somos, talvez seja necessário descobrir que outras partes de nós ficaram esperando enquanto construíamos aquela que aprendeu a ser tão competente. Porque pode ser que exista uma forma de excelência que não esteja relacionada a fazer mais, produzir mais ou tornar-se continuamente melhor. Talvez esteja relacionada à capacidade de reconhecer os próprios limites sem vivê-los como uma ameaça, de permitir que outras pessoas participem daquilo que construímos e de suportar que nem tudo aconteça exatamente como gostaríamos. E talvez, para algumas das pessoas que passaram grande parte da vida desenvolvendo a capacidade de sustentar tudo, uma das experiências mais difíceis seja também uma das mais necessárias: descobrir que ser capaz de fazer sozinho não significa que seja preciso fazer sozinho. E que uma vida suficientemente boa não precisa ser aquela na qual conseguimos controlar todas as variáveis, evitar todos os erros e realizar todas as potencialidades; pode ser aquela na qual podemos continuar desejando muito de nós mesmos sem transformar esse desejo em uma condição para podermos reconhecer algum valor naquilo que já somos — e sem transformar a própria capacidade de sustentar a vida em uma razão para não permitir que, em alguns momentos, alguém a sustente connosco.




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