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Adolescência: Passagem à Autonomia

Atualizado: 6 de fev. de 2023


Imagem: Quadro Galatea das Esferas de Salvador Dalí (1952).


O que é ser adolescente?


Ao longo da história, o adolescente foi retratado de diferentes modos, mas particularmente na Psicologia do Desenvolvimento, por muito tempo, o adolescente foi conceptualizado a partir de uma perspetiva do adulto a qual enfatizava principalmente a instabilidade da fase e aspetos mais negativos: Aristóteles definia os adolescentes como intensos, apaixonados e capazes de cederem aos impulsos, Sigmund Freud (1878/95) associava a adolescência à crise e à passagem para o desenvolvimento psicossexual maturo e Stanley Hall (1904), por sua vez, associava a um período de emotividade aumentada, marcada por stresse, excitação e depressão. Eis que Erik Erikson (1968) passou a dar novas facetas à adolescência, vendo-a como uma fase de transformação e de crise, como muitas outras da vida, no entanto, a conter em si os seus encantos e novidades. Falarei então de alguns desafios da adolescência, bem como de características que fazem da mesma uma fase única e com que temos muito a aprender.

As pessoas, em diferentes idades, estão sujeitas não somente a certas capacidades e limites biológicos (um bebé por exemplo não pode correr, assim como uma criança não atingiu a maturidade para compreender certos temas), mas também às exigências sociais contextualizadas culturalmente para a sua fase de vida. Enquanto, por exemplo, a tarefa de uma criança seria a resolução do dilema entre sentir-se seguro e protegido e poder explorar o ambiente, para o adolescente a sua crise se centraria no dilema da construção da sua identidade e da escolha de papéis a desempenhar dentre tantas propostas, estas oferecidas tanto pela família, como por sua rede social e propostas culturais e ideológicas.


Hoje a adolescência é vista como uma fase complexa, com significativas mudanças quantitativas e qualitativas aos níveis biológicos, psicológicos e sociais do indivíduo. Para exemplificar alguns dos processes, ao nível biológico podem ser destacadas a maior produção de hormonas, a chegada da puberdade e a alteração da imagem pessoal, a vivência emocional mais intensa e todas as consequências sociais e psicológicas destas alterações. Ao nível social, há novas exigências escolares, novas formas de socialização e o aumento significativo da rede social, bem como a iniciação da vida amorosa e sexual e, mais ao final da fase, a decisão do rumo profissional. Ao nível psicológico há também mudanças significativas, as quais serão em breve retratadas, entretanto, em meio a tantas alterações, as esferas biológico, psicológico e social estão em constante interação e modificação e cabe ao adolescente a difícil tarefa de as compreender e assimilar na sua identidade pessoal.


Apesar de serem muito destacadas as atividades emocionais dos adolescentes, especialmente quanto à sua intensidade e instabilidade, é de grande relevância as suas

peculiaridades na aquisição de novas capacidades cognitivas, tendo uma racionalidade marcadamente distinta da infantil. De acordo com as teorias de Jean Piaget, isto se deve a duas mudanças estruturais no desenvolvimento psicológico: o surgimento do pensamento hipotético dedutivo e da moral autônoma. O pensamento hipotético dedutivo é caracterizado pela possibilidade de realizar operações mentais complexas, podendo ocorrer maior abstração do pensamento, virtualização e relativização de conceitos e ideias. Desta forma, para além das inúmeras modificações com as quais os adolescentes lidam, a realidade que era antes para eles verdadeira na infância passa a ser relativizada e questionada. O que é verdade? Quem sou eu? são exemplos das questões fundamentais da juventude. No que se refere à moral autónoma, esta se trata do questionamento da moral e regras a eles impostas, tanto pelos pais, como pela sociedade, de modo que é natural que idealizem e busquem ideais éticos e lutas revolucionárias com as quais se identifiquem e queiram seguir.


Como bem formulado por Carvalho (1996): "A adolescência é uma fase que impele o indivíduo à própria redefinição da identidade, ao avaliar a sua inserção no plano espaço-temporal, integrando o passado, com suas identificações e conflitos, ao futuro, com suas perspetivas e antecipações".


Construir a identidade, uma tarefa muito difícil e inovadora. Se na infância a identificação por imitação constituía o principal meio de socialização, na adolescência surge a necessidade de autonomia e diferenciação. Tais fenômenos podem ser ainda mais acentuados entre os jovens dos centros urbanos, sendo comum ocorrer a identificação com subculturas como a Emo, a Gótica, Hippie, entre outras. Concomitantemente aos questionamentos, o jovem vai vivendo e experimentando para definir-se e este processo costuma acarretar em grandes preocupações aos adolescentes dada a sua nova experiência de liberdade: a perceção do peso das consequências de se realizar diferentes escolhas. O que escolher, o que se ganha ou perde em uma escolha? O que acarreta na minha vida? O que isso faz de mim? É característico ainda a frequente a negociação de sentidos entre pares de opostos, de modo que o jovem busca superar estas dicotomias e encontrar um novo equilíbrio pessoal, como por exemplo: Isto sou eu ou influência dos outros? Ser ou não ser? Masculino ou feminino? Heterossexualidade ou Homossexualidade? Autonomia ou Intimidade? Liberdade ou Segurança?...


Pensadores como Jean Paul Sartre e Simone du Beauvoir muito bem conceptualizaram a adolescência, definindo-a a como a dualidade entre a angústia paralisante e a necessidade de liberdade e construção da própria identidade. A isso, os autores nomearam de Moral da Ambiguidade. Não se é mais criança assujeitada a um mundo, regras e valores já prontos e externos (agir de Má-Fé), tão pouco um adulto consciente, responsável, com convicções pessoais e liberdade na construção de sua realidade (Vontade de Potência), mas se é consciente de que a realidade atual é apenas uma entre as várias possibilidades existentes.


Outro aspecto significativo da adolescência seria a particularidade de sua relação com o tempo e a mortalidade. O adolescente, com a maior consciência da escassez de tempo para se realizar em todos os seus sonhos, projetos e possibilidades, refugia-se em uma "falsa eternidade", o famoso conceito de que o adolescente age como se vivesse para sempre. O adolescente vive constantemente em uma viagem do tempo mental, há a retrospectiva da infância, a prospecção da vida adulta, o não-tempo no imediatismo do prazer e da passagem ao ato e o tempo ambíguo de ter de se escolher ao que dedicar o tempo e ao que abdicar.


Estas características fazem da adolescência uma fase única, e embora os adultos também tenham a capacidade para a relativização, crítica e questionamentos, estes são muito mais intensos nos jovens, cuja força muitas vezes permite o advir de novos movimentos sociais e tendências que acabam por transformar a realidade. O adolescente é essencial, muitas vezes inspirando, sonhando e atuando na sociedade com a convicção e esperança que muitos adultos, tomados por certo conformismo, já não experimentam.


Vistas as grandes dificuldades, modificações e complexidade desta etapa, é crucial que aos adolescentes seja dada a liberdade da comunicação e da expressão, o meio para a elaboração de si. Ouvir horas de música, escrever e ler poesia, se identificar com personagens e estrelas de cinema, desenhar, pintar, argumentar sobre teorias e hipóteses, socializar e ter uma grande necessidade de interagir com amigos e membros não familiares: todas são linguagens simbólicas, plásticas e necessidades que permitem dar algum sentido e coerência a todo um tumultuoso conjunto de ideias, medos e desejos. Esta íntima exploração que o adolescente faz das variantes da linguagem, procurando associar a arte e produções culturais com o seu material subjetivo, isto é, aquilo que ele sente e se identifica, o auxilia a atingir um maior autoconhecimento, expressão e integração da própria identidade.


Mas para além dos benefícios da linguagem (em seu sentido amplo - verbal, artística, símbolos, representação), o que pode favorecer uma adolescência funcional e com bem-estar e o que podem oferecer riscos significativos podendo comprometer a sua saúde mental?


Bom, não há fórmula ou formas exatas, pois em psicologia, cada caso é um caso, entretanto, pode-se falar em fatores protetores da adolescência e fatores de risco, a partir dos quais elaboro um pequeno guião antecipatório aos pais e educadores:


GUIÃO


Dada a complexidade da adolescência, é importante acompanhar os processos de transição identitária em uma perspetiva visando a continuidade e não a ruptura, isto é, visando uma transição gradual e harmônica em uma adolescência saudável que promova um adulto coerente, consciente e livre. O adolescente pode integra novas vivências àquilo que já tinha como seu e familiar.


É comum na adolescência a existência de grandes conflitos existenciais, referentes não somente à própria identidade e valores do jovem, como também à sua própria família e, mais largamente, à sociedade, de modo que é importante nesta fase que a família se revele como um ponto de suporte, oferecendo disponibilidade para ouvir questionamentos bem como validar emoções. Embora as ideias e mesmo comportamentos do jovem possam parecer muito conflitantes com os valores e ideias familiares, é importante ouvir as causas subjacentes a tais processos e buscar orientar, conscientizar e supervisionar ao invés de punir, de forma tal que o jovem se torne consciente de suas ações e da responsabilidade que tem e terá, por toda a sua vida, de seus feitos. Mesmo que tomado por idealizações e certa intolerância à oposição (comum em alguns adolescentes) é importante que sintam em casa a abertura para discutirem as suasu ideias, sentindo-se assim, não somente respeitados, como também mais abertos à conselhos e orientações. A compreensão e apoios parentais diante das novas construções identitárias do jovem são cruciais para um desenvolvimento coerente e saudável, mas a compreensão não implica o apoio incondicional, uma vez que facilmente os jovens, em sua ainda frágil identidiade, são influenciados pelo grupo e logo, necessitam de orientação para distinguirem aquilo que querem para si e sua vida e aquilo que estão a ser pressionados ou infuenciados, independente de seus valores pessoais. Diante de questionamentos, explorações, entretanto é essencial garantir e ressaltar a ética, de modo que o jovem não venha a realizar nada que prejudique a si ou aos outros, bem como de o conscientizar das regras subjacentes à vida em sociedade e à lei, não relativizáveis em seus comportamentos. Sobre este último ponto, é essencial que os pais sejam assertivos na imposição de limites.


Atentos às questões comuns da adolescência, tais a sexualidade, o uso de substâncias psicoativas, a escolha profissional e a relativização de constructos sociais em busca de novas verdades; é essencial que a família se mostre, desde início, aberta a dialogar tais temas, fornecendo as devidas informações para que as experiências sejam vividas de modo consciente dos riscos existentes e com responsabilidade.


Dadas as necessidades de autonomia e exploração e devendo as mesmas serem respeitadas, é essencial promover e facilitar a socialização do jovem com pares para a troca e aprendizagens sociais.


A adolescência é uma fase de muitas inseguranças, diante de várias temáticas (próprias competências sociais e académicas, aspeto físico, sexualidade, como lidar com relações e interações de diferentes naturezas...), de modo que é importante valorizar o jovem, motivá-lo e encorajá-lo e, ao mesmo tempo, orientar a se aprimorar diante dos conflitos nos quais não apresenta muita resiliência.


Por fim, é essencial estar atento, pois não é fácil para os adolescentes viverem, processarem e elaborarem todo esse turbilhão de transformações: grandes alterações comportamentais e de humor, que sejam estáveis ao longo do tempo e acompanhadas de certa quebra no padrão de funcionamento anterior e de prejuízo de funcionalidade, devem ser melhor observadas e analisadas, particularmente se há histórico de psicopatologia familiar ou se houveram dificuldades psicológicas na infância. A realização de psicoterapia pode ser uma medida preventiva essencial nessa fase, auxiliando o jovem na busca de sua identidade, na melhor resolução de conflitos e no adquirir de maior autoconhecimento, evitando o desenvolvimento de processos psicopatológicos.


Sintomas a se estar atento:

•Humor deprimido( choro fácil e falta de interesse em atividades que antes despertavam prazer)

•Queixas somáticas( dores, enxaquecas, problemas de sono)

•Comportamentos auto-lesivos

•Isolamento e solidão

•Comportamentos desviantes como furto e roubo

•Mudanças na performance escolar e acadêmica

•Uso de susbstâncias psico-ativas

•Ganho ou perda substancial de peso

•Hiperactividade e euforia


Para concluir, a adolescência é uma fase única, bela e muito rica do desenvolvimento, devendo ser compreendida em sua totalidade, dando voz aos próprios jovens para a sua conceptualização e avaliação de desafios e necessidades. Deve-se buscar compreender o universo do jovem tal como ele experiencia em sua complexidade e relações, valorizando suas perspetivas e emoções, em detrimento de uma visão negativista do adulto sobre o jovem. O essencial é estar aberto ao diálogo e à negociação, sem esquecer que, não sendo adultos, carecem e necessitam de orientações, amor e validação.


Referências Bibliográficas


Beauvoir, Simone de. (1970) Moral da ambiguidade. Rio de Janeiro: Paz e Terra,


Coleman, J. ; Hagell, A. (2007) Adolescence, Risk and Resilience, John Wiley & Sons.


Eriskson, E. H. (1968) Identity: Youth and Crisis. New York: Norton.


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