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Luto

Atualizado: 7 de mar. de 2023




O luto é um processo complexo de crise e de adaptação à perda, podendo ocorrer em diferentes situações: o luto de uma relação, da morte de alguém significativo, de uma fase de vida, de um trabalho, entre outros. Neste breve artigo, darei enfoque ao luto relacionado à morte, infelizmente uma necessidade mais destacada diante das inúmeras perdas decorrentes da pandemia.


A morte é um fenômeno natural e é abordada e retratada por diferentes áreas do conhecimento e da arte, essencialmente por ser o grande facto da existência: um dia, tudo acaba e devemos logo, "aproveitar bem a vida" e cada momento. Embora tenhamos consciência racional da finitude, não é frequente o preparo emocional para a mesma e muitas vezes, aquilo que poderia ter sido feito no presente acaba sendo postergado e adiado, até que, diante da impossibilidade de concretizar planos, muitos se assolam pela culpa. Como lidar com a morte de alguém amado com quem não se chegou a fazer as pazes, por exemplo? Como seguir com planos de vida que eram para serem realizados em conjunto? Quem cuidará de mim agora? Estas são algumas das inúmeras questões que podem angustiar o enlutado. Somos apegados àqueles que amamos e diante da perda, parte de nós também é perdida. Quem ser, como ser, como viver agora?


A morte de uma pessoa tem um peso diferente para as pessoas a depender da relação existente (avós, pais, filhos, irmãos, amigos, etc.) e estas diferenças devem ser consideradas, entretanto, independente do contexto, o processo de luto exige a passagem por diferentes fases e tarefas: A fase da aceitação da morte, a fase da elaboração da dor da perda, a fase da adaptação a um mundo sem a pessoa e uma fase de reinvestimento em si e na vida.


A fase da aceitação da perda é a difícil fase de confronto com a realidade e com o facto de que a pessoa falecida não irá voltar. Algumas pessoas podem acabar por negar a perda, buscando manter a pessoa viva ao constantemente falar da mesma ou agindo conforme a pessoa, caso viva, desejasse. Alguns mantém os pertences do ente que faleceu intactos, não aceitando a mudança radical que ocorreu. Estas formas de proceder impedem que a pessoa elabore as emoções de sua perda e, consequentemente, se readapte ao mundo e à vida. É muito importante, após uma fase inicial, de decidir um rumo para os pertences da pessoa que faleceu, bem como, ao falar da pessoa, buscar utilizar vocativos e tempos verbais adaptados à nova realidade (ex: meu falecido marido, tal "pessoa era"). O funeral, entre outros rituais de passagem, são aqui de suma importância, pois são uma forma, carregada de simbolismo e emoção, de dizer Adeus. Tais rituais também permitem o reconhecimento público da perda e uma coesão social, aumentando o suporte social da pessoa enlutada.


Infelizmente, nesta pandemia, em diferentes casos, a realização de rituais de despedida foram impossibilitados, podendo trazer grandes prejuízos ao processo de luto e à saúde mental. Uma forma alternativa para lidar com esta situação, seria a realização de um ritual pessoal, como por exemplo, o escrever de uma carta de despedida e o enterrar de objetos simbólicos da pessoa falecida. O enterrar de tais objetos pode se dar em algum sítio significativo e ser acompanhado pelo plantio de alguma árvore ou flor, podendo simbolizar assim a passagem da morte para o renascimento (caso fizer sentido espiritual para os enlutados) ou simplesmente um processo para eternizar interiormente o legado que a pessoa deixou para os outros.

A fase da elaboração da dor da perda requer a vivência das mais diferentes emoções decorrentes do processo de luto. É normal sentir uma grande variedade de emoções (raiva, culpa, tristeza, angústia, alívio, desamparo, desespero, medo, ansiedade), de sensações (falta de ar, aperto no peito, vazio no estômago, sensação de despersonalização, fraqueza, boca seca, nó na garganta), alterações cognitivas (ilusões de ouvir ou ver a pessoa, descrença, confusão) e alterações comportamentais (distúrbios do sono e do apetite, tendência para esquecer as coisas, sonhos, isolamento social), não havendo um tempo específico para voltar a "estar bem". Entretanto, se pequenas situações desencadeiam sofrimentos avassaladores, incapacitantes e que acabam por prejudicar o funcionamento quotidiano de um indivíduo, pode se estar diante de um luto complexo e que exige acompanhamento especializado em intervenção psicológica no luto.

O essencial nesta fase é expressar o que sente, independente de outras dificuldades concorrentes que possam fazer com que a pessoa oprima as suas emoções ou as postergue, pois a não elaboração e a fuga emocional pode levar ao desenvolvimento de psicopatologias, bem como de comportamentos como o abuso de substâncias. Busque ajuda, mantenha contactos específicos e de confiança para momentos de dor e, se preciso, pode ser muito importante realizar acompanhamento psicoterapêutico para lidar não somente com uma variedade de emoções, mas com tudo aquilo que elas podem significar dada a história que se tinha com a pessoa que faleceu. A relação com a pessoa poderia ter sido ruim, de dependência ou marcada por ambivalência e conflitos não resolvidos. Tais relações complexas poderiam assim eliciar emoções como a culpa, a culpa por sentir alívio; o evitamento de falar, pensar ou sentir emoções negativas relacionadas a aspetos ruins da pessoa e da relação levando a uma consequente idealização irreal da pessoa ou também uma desvalorização da pessoa e da perda em nome de reduzir a verdadeira dor sentida, entre outros. O importante é rever a história da relação com a pessoa, as reais emoções sentidas, em todas as suas valências e intensidades, dando assim corpo e significados realistas ao vivido. Recursos utilizados nesta fase podem ser o revisitar de memórias, a visualização de fotos e vídeos, de objetos significativos e o revistar de materiais que permitam a identificação de pensamentos e emoções (positivas e negativas) associados à pessoa que faleceu. Tal não somente permite a expressão emocional, mas também a identificação de conflitos com a pessoa que faleceu, podendo levar à confirmação ou reestruturação de crenças irrealistas ou distorcidas associadas à anterior relação e que acabam afetando e reação emocional.

A fase da adaptação a um mundo sem a pessoa é uma fase possibilitada quando a necessidade de investimento na elaboração da dor da perda já foi reduzida, podendo assim investir energias na aprendizagem de competências e novas formas de ser. Sem a elaboração emocional anterior, novas dificuldades acabariam por emergir, como a desatenção, a falta de energia, a redução das capacidades de raciocínio e resolução de problemas, entre outras que afetariam a adaptação da pessoa à nova realidade e, consequentemente, o seu autoconceito e autoestima.


Esta é uma fase voltada para a aprendizagem de novas capacidades, muitas vezes antes assumidas pela pessoa que faleceu, e pode exigir muito tempo, esforço e também apoio. A busca de auxílio por uma rede social e de suporte é aqui de suma importância. Nesta fase são também refletidos e redesenhados planos pessoais e projetos, podendo haver também um profundo investimento no autoconhecimento e no refletir da própria vida. Para além da crise de adaptação à perda, esta fase pode acabar por envolver crises existenciais, recomendando-se assim, um acompanhamento terapêutico para facilitar as tarefas do luto.

A fase de reinvestimento em si e no mundo é possível não somente pelos processos anteriores, mas pela pessoa ter desenvolvido, ao longo de seu processo de luto, um reposicionamento em sua vida emocional da pessoa que foi perdida. A pessoa que faleceu continua viva de certa forma, mas em lembranças, aprendizagens e vivências, não ocupando mais um lugar central na vida da pessoa, sem no entanto, significar a perda de sua importância. Aqui, a capacidade de amar é restaurada e a abertura à vida fortalecida.


Estas fases representam um guia dos processos do luto, entretanto, é essencial destacar que nem sempre ocorrem de modo linear, podendo reaparecer e muitas vezes, há tentativas de passagens de uma fase à outra sem que a anterior tenha sido bem resolvida. É muito importante no processo de luto a paciência e o carinho consigo mesmo, se permitindo e aceitando a normalidade de eventuais momentos de maior vulnerabilidade. Afinal, perder alguém que se ama é mais que uma perda, mas a necessidade de se reinventar.


DESMISTIFICANDO UM TABU: O LUTO NAS CRIANÇAS


O conceito de morte vai evoluindo ao longo da vida, mas para uma criança, ainda que não a compreenda, já há a vivência do medo da perda e do fim de um vínculo. Desta forma, as crianças sentem a perda e também devem realizar o luto!


Diferentemente da função de proteção da criança que algumas posturas acreditam favorecer através do silenciamento do tema da morte diante de crianças, evitando falar da mesma ou expressar a própria dor emocional próximo às crianças, tais posturas apenas acabam por as frustrar, pois as crianças também estão a lidar com a perda, mas sentem-se confusas com a reação dos outros e receosas em se expressar. Por isso, é essencial envolver a criança na experiência de luto e demonstrar a disponibilidade para as escutar e amparar em suas emoções e receios.


O luto para as crianças é complicado, não somente por terem limitações verbais e emocionais para compreender e expressar como se sentem, como também por terem uma menor tolerância para o sofrimento. A criança pode se sentir muito sozinha e não recebe consolo de outras crianças, de modo que o seu luto pode ser facilitado se souberem o que está acontecer e se tiverem apoio de adultos que estejam disponíveis emocionalmente para ampará-las. O processo de apoio ao luto infantil é favorecido pelo exercício de atividades lúdicas, como de brincadeiras temáticas e rituais simbólicos. Entre estes pode se exemplificar o ritual de deixar uma carta/mensagem a um parente e plantar algo em sua homenagem.


Também acerca do luto infantil, quando muito pequenas, as crianças não conseguem perceber a separação entre aquilo que elas pensam ou são e a realidade, tendo uma compreensão muito autocentrada da realidade, de modo que a morte de alguém significativo, especialmente de um parente, para além de gerar sentimentos de medo e desamparo, acaba por gerar culpabilidade: a criança sente que foi abandonada por não ser merecedora de amor. É essencial lhes garantir que são amadas, que não têm culpa e que terão a continuidade de cuidados de outros membros da família. Também, a compreensão de crianças daquilo que lhes é dito é muito literal, de modo que a morte lhes deve ser anunciada de um modo claro e direto (" o corpo parou de funcionar"), evitando eufemismos ou abstrações que irão apenas acabar por as confundir. Crianças mais velhas podem ainda sentir um grande receio de mais perdas, tornando-se muito controladoras da realidade e compulsivamente preocupadas com o bem-estar de pessoas queridas. As crianças ainda podem ter reações de hiperatividade, euforia ou de despersonalização. Já nos adolescentes, a compreensão da finitude comumente leva a um grande desinvestimento na realidade. É aconselhável que crianças e adolescentes sejam acompanhados psicologicamente diante de processos de luto, pois quando mal resolvidos podem contribuir para o desenvolvimento de perturbações no futuro.


Por fim, reitero, a grande necessidade de falar sobre a morte e de se expressar. Se está em luto ou conhece alguém passando por isso, não hesite em falar/perguntar sobre o luto e recorrer /oferecer ajuda. Estamos em uma fase social de extrema dificuldade e é essencial que ajudemos uns aos outros no seu bem-estar e saúde mental.




Material de apoio de curso focado na Intervenção Psicológica no Luto (MDC Psicologia e Formação):


Bowlby, J. (1960). Grief and mourning in infancy and early childhood. Psychoanalytic Study of the Child, 15, 9-52.

Bowlby, J. (1980). Attachment and loss: loss, sadness, and depression. Basic Books: New York.

Coralli, B. (2012). O silêncio coletivo: a morte na atualidade e o desconforto causado por ela. Retirado de www.psicologia.pt.

Engel, G. L. (1961). Is grief a disease? A challenge for medical research. Psychosomatic Medicine, 23, 18-22.

Kubler-Ross (1969). On death and dying. Mcmillan: New York.

Lima, F. F. & Carvalho, L. V. (2009). A criança e a morte. Sociedade Brasileira de PsicoOncologia.

Melo, R. (2004). Processo de luto o inevitável percurso face a inevitabilidade da morte. Retirado de http://groups.ist.utl.pt/unidades/tutorado/files/Luto.pdf.

Pedro, A., Catarino, A., Ventura, D., Ferreira, F. & Salsinha, H. (2010). A vivência da morte na criança e o luto na infância. Retirado de www.psicologia.pt.

Walsh, F. & McGoldrick, M. (1998). Morte na família: sobrevivendo às perdas. Artmed: Porto Alegre. › Worden, J. W. (1982). Grief counselling and grif therapy. Springer Publishing: New York. › Worden, J. W. (1998). Terapia do luto. Um manual para profissionais de saúde mental (2ª Ed.). Artes Médicas: Porto Alegre.





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